Os paradoxos de Jesus

As afirmações de Jesus soam muito orgulhosas, mas ele foi o mais humilde dos homens. Ele falou como um megalomaníaco, mas ele era o mais modesto e balanceado dos seres humanos. Seus ensinos eram fundamentalmente auto-centralizados, “eu, eu, eu” mas ele era absolutamente descentralizado, se dôou num auto-sacrifício pelos outros. Ele se fez a figura central no dia do juízo, e daí se prostou de joelhos e lavou os pés de seus apóstolos. Seu Senhor e seu Juiz se tornou seu servo. Quero sugerir que isso não somente é lindo, mas também único. Veja que é a combinação de autoridade e humildade, de afirmações auto-centralizadas e caráter não-centralizado que podemos dizer é único em toda a história do mundo.

Tradução aproximada de um sermão de John Stott.

Bomba

Essa madrugada choveram comparações entre o 9 de setembro e as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki e acusações de que os EUA são os maiores terroristas da história. A hashtag parecia ser inventada pelos alunos do professor Carlão, um exemplo de professor brasileiro que entope a criançada com anti-americanismo terceiro-mundista.

O caso se aplica? Para quem não entende de história sim. Na Batalha de Saipan, segundo o historiador Herbert Bix, o Imperador Hirohito ordenou que todos os civis cometessem suicídio, e cerca de 22 mil civis, dos 25 mil que viviam na ilha, obedeceram. Em Okinawa, 1/3 da população da ilha cometeu suicídio (algumas vezes em ataques suicidas comandados por militares). Isso sem contar as baixas só do exército, onde muito poucos de milhares sobreviviam, para se ter idéia em Iwo Jima, de 19 mil soldados japoneses, apenas 200 sobreviveram, e em Saipan, dos 31 mil, 921 mantiveram a vida.¹

A linha entre militar e civil era embaçada devido a religião e código militar dos japoneses, uma invasão poderia causar um grande genocídio, além claro, de baixas americanas. Aliás, é complicado achar um inimigo de guerra que após a derrota do outro, ajudou o seu inimigo a se recuperar, é talvez por isso, que o anti-americanismo nesse caso é mais forte aqui que no Japão, que hoje é um aliado americano.

A vida de milhares em Hiroshima e Nagasaki ajudou a salvar milhares de outras e até o Japão. Foi um sacrifício heróico e eficiente e uma decisão muito difícil que quem critica muitas vezes não percebe (e não quer perceber) as nuances, afinal, se quer ser popular entre os intelectuais brasileiros seja como o professor Carlão, que é mais um comediante stand-up que um professor.

1- Info de Edgard, da OdC.

Deus, Robô

Dá certa tristeza ter de comentar assuntos ignorados pelo mundo mas que ganha firmeza em terras brasilianas, não sei se é culpa da nossa língua só ser falada em poucos países além de nossas fronteiras, mas é algo a se pensar o quão útil seria tornar o espanhol ou inglês a nossa segunda língua, quem sabe assim não nos tornaríamos uma gigante ilha voltada a si mesma ou acabar sendo surpreendidos por idéias do século XVIII.

Esse é o caso da conscienciologia que é mais ou menos um espiritismo 2.0, o espiritismo me parece o grande herdeiro do ocultismo maçônico gnoseo-esotérico iluminista, que mesclando ciência com “macumba” permitia criar uma religião positivista, com o divino sendo desnudado pela razão. Assim se encontra milhares de termos gregos para dar ares de cientificidade ao que, ironicamente, não pode ser comprovado pelo método científico.

Por causa desses ares de ciência, eles optam por experiências em laboratório, para delírio de quem acha que pode encontrar Deus em um tubo de ensaio. É através dessa Espiritualidade Mecânica do panteísmo, tão alheia à personalidade relacional de Deus, que se busca o “como” e não o “porque” das coisas desassociando moral da metafísica.

Jesus não curou pessoas para acabar com o sofrimento delas, as curou para provar um ponto, tanto que curou o cego, mas não tirou a cegueira do mundo, tampouco saltou do penhasco para ser agarrado por anjos ou transformou pedra em pão, sendo que podia ter simplesmente voado para longe dali ou após transformar pedra em quindim, ter multiplicado e compartilhado com anjos. Atos divinos na ordem natural possuem significado que a mera curiosidade não alcança, é necessário uma autoridade moral. A complexidade desse relacionamento não se mímica em laboratório. O cosmos é indiferente, o Deus do cristianismo por outro lado, é amor.

Não descreio que tais experiências aconteçam, até porque já ouvi falar que acontecem no cristianismo, mas aqui nunca desassociadas do poder divino, ou seja, se acontece é poder de Deus. Mas quando acontece de tal forma, quando é mero pragmatismo para excitar os sentidos só resta concluir que é uma religião com os determinantes efeitos da queda, uma experiência sem sentido para desviar do verdadeiro sentido da experiência.

Entre a chamada espiritualidade mais avançada e a medievalidade do cristianismo, prefiro o antiquado ao que há de mais bárbaro na atualidade, o cristianismo é histórico, e mais confiável do que uma aventura egocêntrica e vazia.

E claro, será que são tão científicos quanto pensam?

O lado correto

Não sei se o leitor conhece o exercício de se imaginar vivendo em outros tempos, estranhamente nunca me pensei no lado correto da história: na Guerra Fria, no auge em que as mentiras que saiam de Moscovo ganhavam vozes na elite cultural dos países capitalistas, seria um comunista itinerante, na segunda guerra, bombardeado pela propaganda nazista, seria um Hitlerista convicto, nos tempos de Cristo, acho que em vez de ser um Zaqueu, seria um fariseu que ouvindo Jesus dizer que quem não tem pecados atire a primeira pedra, seria o primeiro a tacar uma pedra no mesmo. Acho que muita gente quando faz esse exercício pega o lado bonzinho, admito que é mais fácil julgar o mal quando o mesmo foi vencido e tendo as informações de hoje, mas é difícil ver como o mal sempre foi mais persuasivo, e talvez por isso me mantenho prudentemente alerta nos dias atuais. Ao fim seguindo essa rota interessantemente concluo: eu seria Adão.