
O Homem Que Ri
Um dos posts do blog que ainda faz sucesso é o sobre a relação entre Coringa e Batman, meus textos antigos continuam vivos e agradeço a quem acessa por isso.
Eu levo quadrinhos a sério, não é a toa que passei metade da infância tentando criar um universo. Isso é se confessar nerd, mas creio que são épicos modernos assim como as Ilíadas povoaram as mentes dos gregos. Dúvidas sempre me instigaram sobre o Cavaleiro Negro, por que Batman é acusado de criar os vilões que combate? Por que o Coringa diz que ambos são em essência iguais? São pequenas complexidades dos quadrinhos que deixam quem lê pensativo.
A tragédia de Bruce se tornou uma obsessão, na pele de um predador ele procura pôr medo naqueles que praticam o crime. Mas muitas coisas são deixadas de lado e são pressupostas, uma delas é a de que a lei é boa e nunca imoral apesar de que Gotham é inteiramente corrupta, Batman nunca teve de lidar com o sistema penal, com questões morais como pena de morte, o seu lado Bruce Wayne jamais combateu o crime em outra esfera a que não seja a de vigilante. O que Batman pensaria sobre o aborto? Será republicano ou democrata? Conservador ou Liberal? Como ele lidaria se vivesse no nazismo, onde as leis eram malignas? São coisas que deixadas de lado, produzem menos polêmica sobre o homem-morcego.
É interessante notar que a tragédia cria heróis e vilões, a tragédia do superman o torna especial como o único sobrevivente de Krypton, a tragédia do Homem-Aranha foi uma das inovações dos quadrinhos, o que antes se tinha que moralidade vem sorteada com superpoderes, a morte de se tio Ben o moralizou. A tristeza de Batman, sua dor pela perda abrupta dos pais (Clark Kent, apesar de órfão nunca teve problemas em lidar com isso) é uma demonstração de poder em face ao mal do mundo, ele radicalmente se opõe à idéia de que ao receber o mal é justificável ser mau com os outros, tomando a decisão de ser ainda mais bom e não permitir que a tragédia que possuiu outros tenham que sentir. Talvez seja uma forma de explicar o porque que existe mal, a tragédia vem como um choque moral, criando e mantendo as pessoas boas, até porque o mal é a ausência do bem, e a tragédia é o bem batendo à porta do coração dos homens, como Deus diria: “vocês esqueceram que eu existo”.
Essa tristeza se contrapõe ao seu vilão, o Coringa é a alegria mortal, veja o quão interessante esses personagens se relacionam, a alegria maligna do Palhaço contra a depressão benigna do Morcego, ambas doenças mentais, ambas a loucura deixada livre. O prazer dele não só é praticar o mal, sua alegria não é apenas destruir vidas, mas corromper a sociedade enquanto Batman tenta moralizá-la, é uma disputa pelas almas de Gotham, para tornar a maioria das pessoas em más e assim inverter a noção do que é moral e não, do que é são e loucura. Afinal, onde não se tem moralidade objetiva a moral vira apenas uma decisão democrática e imposta pelo Estado. As ações do Coringa também tem consequências políticas. A alegria do Coringa e a tristeza de Batman se assemelha ao que é dito por Jesus, “vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes”. O bom sentirá tristeza, enquanto o mau terá alegria. Não é a toa que Batman é um popular personagem que atua como auto-ajuda.
Não se sabe as origens do Coringa pois elas são múltiplas, a mais popular também nasce de uma tragédia onde ele cai em um tanque, se desfigura e enlouquece, mesma coisa acontece quando Harvey Dent se desfigura e se torna maligno. A beleza desfigurada, a imagem humana que possuiam dá lugar ao monstro. Aqui nós entramos na parte estética, porque os que se tornam feios sendo antes bonitos tornam-se de imediato maus nos quadrinhos? Será que é uma analogia à ruptura com a imagem de Deus?
Mas Batman também se tornou um monstro, aquilo que ele mais temia agora é o que ele faz os outros temerem, ao vencer seus medos e deslocar para seus inimigos tornou o medo seu superpoder, sem ele Batman é apenas um homem. O medo aqui é moralizante e uma crítica sutil à idéia de que “ser bom faz bem”, é muito interessante porque sempre não vi mal que “os cristãos são bons apenas por medo do inferno” por quem teme ser politicamente incorreto, socialmente inadequado, ser preso ou qualquer outra punição social (e de fato, por temer a Deus somos livres a não temer qualquer outra coisa). O medo como arma foi uma escolha muito inteligente por parte de Bruce, pois torna o mesmo onipresente na mente dos maus, assim como a punição tem a face da prevenção.
Enfim, comentar o assunto é sempre um prazer intelectual inesgotável, e dificilmente pararei por aqui, mas espero ter lançado mais luzes sobre as complexidades e até contradições inerentes à criação humana que meros personagens de quadrinhos, tidos como baixo entretenimento podem dar.