Crise Existencial

Desde o descobrimento do Brasil o catolicismo esteve onipresente, os serviços dos jesuítas colonizaram, combateram a escravidão e por fim expulsaram os calvinistas holandeses e franceses das nossas fronteiras. Não é acidente que os nomes de nossas cidades são batizadas em honra aos santos, e que o crucifixo, símbolo da máxima injustiça que cometemos com um justo, vigora nos nossos tribunais alertando-os a não cometerem o mísero novamente.

E isso nos traz ao movimento evangélico, que é resultado de uma crise existencial do protestantismo brasileiro, suas origens radicais (a ala esquerda da reforma) que condenam dois mil anos de catolicismo não pode viver em um país de maioria católica e colonizado por católicos, daí nasceu todo esse triunfalismo que visa tomar esse lugar que é de mérito, dos católicos. A briga por números de fiéis, a luta por mais poder político, são uma busca de resultados que foram bem sucedidos por causa da desobediência teológica interna do catolicismo brasileiro, como o anti-intelectualismo americano fez crescer o número de católicos nos EUA, de todas formas, nada expulsa mais fiéis que a falta de uma boa teologia.

O infortúnio é que os evangélicos em busca de uma maioria no Brasil não teria outro caminho senão pelos pobres, e os pobres, pelo menos brasileiros já que Bach literalmente não tinha onde cair morto, não são reconhecidos pelos seus grandes valores estetas: grande música se faz com a condensação de experiências, um militar pode cantar sobre a conquista de um território, sobre ser bravio em batalha, uma pessoa pobre como se observa, não tem muito o que cantar além de sua luta por sobrevivência e lazer, que geralmente é a atividade sexual, razão da proliferação urbana de qualquer bumbo que suavize a consciência para a entrada da lascívia. Embora pobreza seja uma bem aventurança, quando a pobreza não tem um valor espiritual que os santos tinham, pois estes mesmo em paupéria, buscaram a beleza do transcendente, ela acaba sendo somente isso: pobreza.

Por isso deixei, anteriormente, a abstinência de quaisquer comentários criticando o vídeo, para que se mostre o fato bruto de que o nosso laicismo é brega comparado a outros laicismos, mas não deixa de ser laicismo, embora ache indicador suficiente como não podem ver um Estado que não seja anti-religioso, pró-religioso ou que não veja a religião como um mal. Reconheço a agonia de ver um culto evangélico na câmara, mas não deixam de representar uma parte do povo que é obrigado a tolerar a todos mas que não é tolerado, por isso fiquei mais contra o vídeo por ser desgostoso do que por apoiar um laicismo anti-religioso, e até acredito que se fosse algo bem feito e ritualístico, atrairia louvores.

Mas de fato, se permitido, uma teocracia evangélica seria uma insanidade,  jogaria o país numa cruzada contra países católicos, cobraria impostos sobre terreiros de macumbas e se tornando uma cópia caricata do anglo-americanismo. Se com só uns deputados no congresso já estão fazendo culto, imagina se botam um presidente.