O profissional da caridade

Ninguém pensa que se o Estado não estatizar a produção de comida e vestes, as pessoas morrerão de fome ou nuas no frio, mas essa simples razoabilidade do cotidiano não se aplica com facilidade às faculdades auditivas sensíveis dos bem-estaristas que querem sempre audir os argumentos mais adocicados e não entoados pela salinidade da realidade, não só seu senso auditivo é corrompido, como visualmente ignoram os pobres nas ruas enquanto lingualmente proclamam grande amor por eles no palanque da hipocrisia política.

O Estado então é aquele que atrai a ambição egoísta de quem deseja salários para a execução da caridade, e não a auto-negação da ambição pelo dever de ajudar. Para isso é necessário acabar nas universidades com o exemplo dos monges que viviam da caridade praticando a vida modesta e produzindo para a sociedade mais do que consumiam, muito ao contrário da vida imodesta que deseja levar os oficiais da caridade estatal, e destruir o ideal da caridade médio-burguesa que dispendia do próprio montante do lucro para viajar em lugares devastados pela pobreza.

Assim os que produzem se iludem e patrocinam o sonho de que profissionais irão atender ao chamado e chegar aos fins do mundo para acabar com a fome, sendo estes mais especiais que os monges e pequenos-burgueses que praticam a caridade pelo auto-sacrifício, cujo chamado altruísta não causa nenhuma atração aos modernos amantes da pobreza. Como não pode existir verdadeira caridade fora do egoísmo salarial, o Estado se aproveita da corrosão moral, do desejo de ser pago e idolatrado pelo bem que ao fim não se faz, pois o Estado empobrece os pobres pelos impostos, paga a si mesmo e devolve o resto em pequenos benefícios que mantém os pobres que trabalham na pobreza e os induzem à vida preguiçosa, e ao terminar o processo, ganha votos em revistas de burgueses liberais que os auxiliam na busca do melhor profissional a ocupar o posto de representante da caridade social, assim eles podem continuar produzindo ignorando o dever monástico e pequeno-burguês de ajudar os mais necessitados.

Todos aos fim saem felizes, o político recebe mais dinheiro, o rico continua produzindo achando que está mudando o mundo e o pobre pode viver na preguiça sendo sempre a vítima: o sonho do bem estar é finalmente concretizado.