Anomia

Partilhando do progressismo desde sua francófila partida, sob sangue de reis e padres e liberando assassinos e estupradores de suas prisões, o liberal buscou produzir a primeira alteração na natureza humana, imaginando que o abandono da moral judaica e do pecado original traria o homem integrado à natureza que viverá harmonicamente no paraíso utópico criado pela riqueza do capitalismo, uma teoria que não ficaria em pé com a falibilidade humana e o sentimento auto-destrutivo de culpa do cristianismo, o liberal não somente está em estado de anomia moral contra o marxismo, mas compartilha do espírito revolucionário deste, e esta é a razão de sua impotência em ser guiado pela revolução cultural de seu irmão radical, pois não se pode expulsar demônios pelo poder dos demônios.

O direito natural secular e humanista do liberalismo de Rousseau, Locke e Hobbes, defendido somente por suas bases animalescas e terrenas, fruto de uma nova concepção de natureza cientificista e materialista, pois não se pode mudar o conceito de homem natural sem mudar o conceito de natureza antes, ignorando a alma imutável, pecadora e o transcendente, muda o homem darwinisticamente, alterando-se culturalmente conforme o ambiente selvagem e civil, rural e urbano, rústico ou confortável e por isso nos novos costumes de um ambiente civil, criou-se no seio liberal capitalista a necessidade de educação e saúde para sobrevivência de uma intensa produtividade econômica, como requer-se esses deveres, clama-se direitos, o liberal americano ao reivindicar isso como direitos tão naturais quanto vida e propriedade veja-se, está somente à frente na curva do liberal brasileiro, que ainda vive em ambiente selvagem, isso explica porque o pai de um programa welfarista como o Bolsa-Família, copiado por esquerdistas brasileiros, foi um americano liberal apologeta do capitalismo, que Obama, um esquerdista de um partido copiado por liberais brasileiros, em campanha promovia-se como redutor de impostos e gastos. Não espanta-se que Marx tinha por teleo do comunismo o anarquismo libertário, os dois irmãos colaboram entre si no mesmo nível em que se combatem para chegar em primeiro na utopia, divergindo se a felicidade é coletiva ou individual, mas ambos tem um inimigo em comum, o reino da cristandade, e quando esse reino oferece algum perigo político, se unem numa única bandeira cultural: progressismo, o homem recria-se a si mesmo.

O direito natural, em sua base divina, reconhece que o homem é Imago Dei, e portanto seus direitos partem do manual divino cujo dez mandamentos não tratavam somente de obrigações espirituais mas espirituais e também sociais, codificando e governando a vida terrena do homem, cuja concretização total se deu na vida de Cristo. Nessa teoria divina uma ofensa à criatura é uma ofensa à divindade criadora, tendo a criatura o dever de honrar sua origem divina para manter esses graciosos direitos adquiridos na sua criação, há o entendimento de que o homem em estado natural era Adão, e veio de Deus e não somente do barro, que a humanidade não é fruto do acaso, mas da livre vontade criativa, e que temos virtudes e vícios subjetivos e não somente valores externos. O protestante, muitas vezes acusado de iniciar o espírito revolucionário, nunca ignorou isso, mas o liberal sim, e o homem refundado para uma sociedade liberal é o mesmo homem nascido para a utopia marxista.