Risco

É verdadeiro que mesmo a modernidade teve de reconhecer o risco de idéias, como o banimento do nazismo e do racismo, se antes já não acusavam perigosas as idéias religiosas. E se tais idéias são consideradas perigosas, havendo causado o homicídio de milhões de pessoas, quanto mais as que não só matam a carne, mas condenam a alma ao inferno, e não só o portador, mas o ouvinte. O homem medieval reconhecendo a existência da alma, via no herege um agressor venenoso, alguém que causava violência ao espírito, e se sobre o adoecido caíra a punição eterna pois os hereges são condenados pelas cartas paulinas, quanto mais este não sofria angústia no mundo distante de Deus.

Jesus deu às prostitutas, aos ladrões e assassinos grande chance de salvação, mas ao tratar do herege fariseu, que com sua régua humana traçava a linha entre Deus e homens distorcendo o caráter divino, não os poupou das piores condenações e ofensas, se o Mestre se escandalizava com hereges, é estranho que modernamente seus discípulos tratem com mais cuidado a saúde física que a espiritual, e condenem seu passado de algo que nem mesmo protestantes ousaram não praticar.

É de se imaginar que se Rousseau, Marx e Hitler estivessem na competência da Inquisição e seus livros tivessem servido para aquecer na noite fria, a modernidade poderia ter sido bem menos sanguinária e seu espírito salvo do niilismo, se hoje convivemos com uma legião de doentes espirituais, é fruto do mal que se espalhou no mundo, mal este que era contido eliminando algumas poucas maçãs podres.